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Arquitetura e Psicologia Unidas Para Melhorar a Fidelização do Aluno
Publicado por Alexandre em 18/10/2008 (549 leituras)
Há um viés a ser explorado pelas Instituições de Ensino Superior no Brasil que muito pode contribuir nas inter-relações que ocorrem no espaço físico educacional e seu contexto na comunidade. Que as IES devem buscar projetos de responsabilidade social e ambiental, todos já sabem. Que nosso planeta vive uma controversa polêmica sobre aquecimento global e todos devem se posicionar, idem. Enfim, que o desenvolvimento sustentável passa por uma imediata revisão do padrão de consumo capitalista para modos mais sustentáveis, acreditamos não ser difícil chegar a um consenso.

A questão crucial neste momento é: Como fazer para que o alunado saia de uma postura passiva para uma condição pró-ativa, de envolvimento com suas questões sociais e ambientais, no contexto da comunidade acadêmica de sua IES? O próprio ambiente educacional construído é a favor de um aluno mais comprometido com o conhecimento?

Os estudos sobre a psicologia ambiental trabalham com foco nas inter-relações entre o indivíduo e seu ambiente físico e social, nas suas dimensões espaciais e temporais. Podemos, com isso, diagnosticar o nível de envolvimento dos indivíduos com o seu ambiente, nesse caso, os atores educacionais com a própria instituição de ensino e, ainda, promover ações na forma de projetos sócio-ambientais, revisões e novas propostas referentes ao projeto arquitetônico da IES, sua representação simbólica, visual e espacial.

Espaço acadêmico, o que é? Segundo a psicologia ambiental, o estudo do ambiente (construído e/ou natural) requer o estudo do indivíduo de forma concomitante e, inexoravelmente, leva a diversas conclusões interessantes. Um ambiente pode ser percebido como acolhedor ou repressor, aconchegante ou hostil, convidativo ou repelente, sendo o resultado de uma alquimia entre indivíduo e espaço. Um projeto arquitetônico bonito, não necessariamente é um bom projeto do ponto de vista da psicologia ambiental. Necessariamente um bom projeto levou em consideração (propositalmente ou não) o indivíduo que ocupa esse espaço.

Quando o indivíduo é considerado como a variável central desse sistema, assim como sua história, sua identidade e, principalmente, seus objetivos, o projeto do espaço passa a ser conseqüência, e não o foco. Em cada localidade há uma história e conseqüentemente uma identidade diferente.

O desenvolvimento de projetos para ambientes construídos ou naturais sem o conhecimento da identidade da organização é o mesmo que jogar com a sorte. Você planeja uma viagem para uma pessoa que não conhece? Você compra uma roupa para uma pessoa que você pouco interage?

Em termos de ambiente construído, um dos espaços mais arcaicos de nosso cotidiano é o espaço da sala de aula: um tablado, um quadro negro, cadeiras enfileiradas e um mural ao lado da porta. Do lado de fora, imensos corredores e portas numeradas. Muitas vezes um sino ensurdecedor demarca a troca de professores. O que dizer da chamada no final da aula? Você consegue imaginar quando este espaço foi inventado na forma como funciona até hoje? O modelo se repete com uma força retroalimentada pelo medo de ousar e pelas relações estabelecidas nesse espaço. Tão antigo como o espaço da sala de aula, é o tradicional modelo de relação professor e aluno. Um aluno passivo, a espera do mestre, e este representado como o dono do saber. Tal modelo passa a ser retrógrado no momento em que percebemos a ineficácia do processo ensino-aprendizagem em todos os níveis. Desinteressados, muitos alunos desenvolvem estratégias eficazes para não estudar e conseguir as notas necessárias. Trabalhos na internet, formas sofisticadas de cola, professores despreparados para lidar com as inovações tecnológicas que se apresentam no setor educacional, podem ser exemplos de como precisamos entender essas relações de forma mais integral.

Como replicar projetos de ambientes educacionais iguais, como soluções únicas, pelo Brasil afora? É como usar a mesma roupa para distintas ocasiões e, pior, em culturas diferentes. Como querer que um aluno se sinta em casa em um ambiente que pouco tem a ver consigo e com sua história de vida? Sentir-se em casa é o mesmo que se sentir bem, para estudar, interagir, trocar idéias e promover ajuda mútua. Será que existem alternativas de espaços físicos que promovam o desenvolvimento eficaz da aprendizagem?

No momento em que uma comunidade acadêmica aumenta o seu senso de pertencimento, sua identificação com a territorialidade, é natural que assuma para si os problemas que a circunda. Aqui entra o papel da própria universidade enquanto tríade: ensino–pesquisa–extensão.

Desta forma, podemos afirmar que os projetos ambientais e sociais que uma determinada comunidade acadêmica possa desenvolver não devem nascer em um gabinete, pura e simplesmente. Eles estão conectados com o contexto, a história daquele grupo, com suas missões individuais de vida. A universidade tem sua razão de ser no momento em que assume para si os problemas que a circunda, o aluno “formado” é uma conseqüência do aprendizado deste fazer comprometido com seu entorno. Este comprometimento pode ser despertado: este aluno e este professor devem ser tocados, provocados. Há sim uma tendência à zona de conforto como em qualquer organização humana, mas sabemos que aqueles que se comprometem fazem a diferença.

Dentro do contexto ambiental ou do ambiente natural, há inúmeras possibilidades de atuação para tirar a comunidade acadêmica de uma endogenia do ensino–aprendizagem para sua inserção em tempo real com a comunidade. Projetos de reflorestamento, despoluição de bacias hidrográficas, trato com resíduos sólidos, educação ambiental, gestão da água, paisagismo ecológico, produção orgânica de alimentos são exemplos, dentre inúmeros outros. O novo contexto para os projetos ambientais é o fazer enquanto cumprimento de demanda local, inserção pensada na comunidade, pois é de lá que vêm os alunos. Assim, o aluno também reforça o senso de pertencimento à própria comunidade e retroalimenta seu pertencimento à universidade. O seu curso de graduação ou pós-graduação ganha um novo sentido, tornando-se um meio e não um fim em si mesmo. Fazer uma graduação para quê? Se não puder ser comprovadamente útil, como poderá ser motivadora?

Por onde começa a mudança? Pelo espaço físico? Pelo aluno? Pelo professor? Primeiramente conhecendo todo o sistema de indivíduos envolvidos neste espaço: alunos, professores, colaboradores e dirigentes.

As pesquisas comprovam que o diagnóstico ambiental e o respectivo investimento no senso de pertencimento do aluno ao seu espaço de estudo, melhora o rendimento acadêmico. Podemos afirmar ainda que, quando há a participação da comunidade educacional na concepção de novos ambientes, maior o senso de pertencimento a eles. Sendo assim, maior o comprometimento com as ações e com as interrelações que ocorrem nesses espaços, sejam elas relacionadas ao ensino, à pesquisa e/ou à extensão comunitária.

Alexandre Martins Balthazar
Telma Cristina Fernandes Crespo
Artigo do mês veiculado no informativo bússola educacional do portal Hoper, ago/2008.
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